Lipidofobia – O Medo de Ingerir Gorduras

Gordura SaturadaO medo de comer gordura parece estar enraizado na mentalidade de grande parte da população atual, o que há alguns anos atrás não se verificava. Esta fobia levou a uma corrida desenfreada, em busca de produtos light e de produtos com percentagens reduzidas de gordura.

Saibam os motivos, pelos quais comer gordura não vos torna mais gordos!

Atualmente a maioria da população tem lipidofobia, ou seja pavor de comer gordura (lípidos), chegando mesmo a pensar que a obesidade evidenciada por muitos, se deve a um consumo exagerado deste nutriente!

Mas a verdade é outra, pois a epidemia de obesidade que nos está a invadir, deriva essencialmente da ingestão de quantidades elevadas de hidratos de carbono!

O que acontece no nosso organismo, quando consumimos hidratos de carbono?

  1. O pâncreas inicia a produção de insulina;
  2. Os hidratos de carbono, depois de digeridos são reabsorvidos para a corrente sanguínea, sob a forma de glicose (açúcar);
  3. Os níveis de glicose (açúcar) no sangue aumentam;
  4. A subida dos níveis sanguíneos de glicose conduz a um aumento na produção de insulina;
  5. A gordura que ingerimos nas refeições (essas refeições são compostas por gordura mas também por hidratos de carbono) fica armazenada nas células, como triglicéridos, que em níveis elevados são responsáveis pelo aparecimento de placas ateromatosas nos vasos sanguíneos;
  6. A elevada quantidade de gordura armazenada nas células contribui para aumentar a percentagem de gordura corporal.

E afinal, o que acontece no nosso organismo, quando consumimos lípidos (gordura)?

  1. O pâncreas produz pouca insulina, o que contribui para a diminuição dos picos desta hormona (insulina), que assim se mantém em níveis reduzidos no nosso organismo;
  2. Como se ingerem menos hidratos de carbono, a quantidade digerida dos mesmos diminui, o que significa uma fraca reabsorção destes hidratos de carbono, para a corrente sanguínea;
  3. Os níveis de glicose (açúcar) na corrente sanguínea permanecem mais baixos;
  4. Para que ocorra a produção de energia, o nosso organismo utiliza os lípidos (gorduras) ingeridos nas refeições;
  5. Para a produção de energia, o organismo recorre também ao consumo de gorduras, que se encontram armazenadas nas células;
  6. Ocorre uma diminuição das reservas de gordura que possuímos;
  7. A diminuição das nossas reservas de gordura traduz-se numa diminuição da percentagem de gordura corporal.

Desde 1977, que as recomendações dietéticas apontam:

  • O consumo de gordura saturada aumenta os níveis de colesterol sanguíneo;
  • O consumo de gordura saturada aumenta o risco de doença cardíaca;
  • O consumo de gordura saturada está na origem do aparecimento de aterosclerose.

No entanto, estas recomendações apenas foram baseadas em teorias e nunca foram devidamente comprovadas.

Os estudos atuais revelam exatamente o contrário, demonstrando que o colesterol abandonou o estatuto de vilão, para adquirir o estatuto de herói!

Quando falamos em colesterol, não podemos analisar os seus níveis individualmente, ou seja, não basta olhar para o valor de colesterol total. E Porquê? Porque não podemos esquecer as frações de colesterol, que são igualmente importantes e que precisamos ter em consideração:

  • Colesterol HDL, intitulado de “colesterol bom” e que está associado a risco reduzido de doença cardíaca;
  • Colesterol LDL, intitulado de “colesterol mau” e que está associado a risco elevado de doença cardíaca.

Relativamente ao Colesterol HDL, as opiniões são unânimes no que respeita aos níveis adequados deste parâmetro, demonstrando que níveis elevados são benéficos para a saúde.

Quanto ao Colesterol LDL, as descobertas apontam que ele só é prejudicial se for constituído por partículas pequenas, pois neste caso estamos perante partículas de LDL oxidadas, que são prejudiciais ao nosso organismo.

Se a fração de Colesterol LDL for constituída, predominantemente, por partículas grandes, este não é considerado “mau colesterol”, visto não se encontrar oxidado.

Voltando ao tema principal, está comprovado que a ingestão de gordura não é responsável pela oxidação do Colesterol LDL. Consequentemente, quem segue uma dieta rica em gordura e pobre em hidratos de carbono, certamente possuirá a sua fração de Colesterol LDL, constituída por partículas grandes e flutuantes. Isto significa que, mesmo que se verifique um ligeiro aumento dos níveis de Colesterol LDL, esse aumento não se considera prejudicial.

Existem provas de que o colesterol dietético, ou seja, o que provém dos alimentos que ingerimos, não tem correlação direta com o colesterol sanguíneo.

Mais, saibam que, se não ingerirmos colesterol suficiente na nossa alimentação, o fígado irá produzi-lo em quantidades superiores, como um mecanismo de compensação, para o que está em falta!

Um pouco de História… Alguns Relatos de Experiências…

Na década de 1950, um pesquisador chamado Ancel Keys formulou a chamada hipótese lipídica, que relacionava o consumo de gordura com o aumento dos níveis de colesterol sanguíneo e como consequência, o aparecimento de doenças coronárias. A indústria que mais beneficiou com a hipótese lipídica foi, sem dúvida, a indústria dos óleos vegetais, que passaram a promover e a financiar várias pesquisas que condenavam o consumo de gorduras saturadas, de origem animal.

Para além de Ancel Keys, surgiu um outro defensor da dieta pobre em gordura… Chamava-se Nathan Pritikin e defendia uma dieta baixa em gorduras, sem açúcar, sem farinhas refinadas (brancas) e isenta de alimentos processados. Pritikin recomendava a ingestão de grãos integrais e de alimentos crus e frescos, acompanhados por uma vigorosa rotina de treino físico.

Constatou-se que os seus seguidores perdiam peso, baixavam os níveis de colesterol sanguíneo e apresentavam valores inferiores de pressão sanguínea. No entanto, ele não entendeu, que estas metas foram alcançadas porque retirou da dieta alimentar, açúcares, farinhas refinadas e alimentos processados e que, ao haver redução do peso corporal ocorreu também uma diminuição tanto dos níveis de colesterol, como de pressão sanguínea.

Mais tarde, ele acabou por descobrir que ao fim de algum tempo, a redução de gordura na dieta alimentar, conduzia a vários problemas de saúde, tais como: falta de energia, dificuldade de concentração, depressão, deficiência de sais minerais e de vitaminas e até o aumento dos níveis de colesterol.

A dieta alimentar pobre em gordura de Pritikin não o salvou de padecer de leucemia. Ele acabou por se suicidar na flor da idade, quando verificou que a sua dieta milagrosa não teve carater preventivo, nem curativo, em relação ao cancro que lhe apareceu.

Atualmente, não existe suporte científico, que apoie o argumento de que uma dieta baixa em gordura saturada e pobre em colesterol, reduza a epidemia de doenças cardíacas e cancerígenas.

Michael DeBakey, um famoso cirurgião cardiologista examinou 1700 pacientes com endurecimento arterial (aterosclerose) e não verificou nenhuma relação entre o colesterol sanguíneo e a incidência de aterosclerose.

Alguns estudos demonstraram que, indivíduos que ingeriam manteiga pura apresentavam um risco reduzido em 50% de desenvolver doença cardíaca, quando comparados com indivíduos que consumiam margarina.

Uma pesquisa efetuada em adultos, no estado da Carolina do Sul, não encontrou correlação entre os níveis de colesterol sanguíneo e uma dieta alimentar composta por carnes vermelhas, gorduras animais, manteiga, ovos, leite integral, bacon, linguiças e queijos.

Vários estudos consideraram o leite materno, o melhor alimento do mundo, mesmo sendo ele composto por 54% de gordura saturada e possuindo uma percentagem mais elevada de colesterol que, praticamente, qualquer outro alimento. Todos conhecem as inúmeras vantagens que o leite materno apresenta, para a saúde e crescimento dos bebés!

Atualmente, vários estudos realizados relacionam dietas com pouca gordura saturada e consumo de leite à base de soja (desprovido de colesterol), com perturbações do desenvolvimento em crianças.

Os Massais e outras tribos de África alimentam-se à base de leite cru, sangue e carne e possuem níveis saudáveis de colesterol sanguíneo, não manifestando doenças cardíacas e muito menos aterosclerose.

Os Esquimós consomem uma quantidade elevada de gordura saturada, proveniente de animais, como a foca, não padecem de doenças e são incrivelmente fortes e saudáveis. Apesar de possuírem o rosto redondo (caraterístico da própria raça), o seu corpo é magro.

Os Franceses ingeriam bastante gordura saturada e vinho tinto e eram um dos povos com menor incidência de doenças cardíacas, o que esteve na origem do Intitulado “Paradoxo Francês”. Ultimamente, diminuíram o consumo de gordura e passaram a ingerir uma quantidade superior de açúcares e farinhas refinadas. Esta situação pode ser, eventualmente, resultado de toda a propaganda feita contra o consumo de gordura, o que ocasionou o aparecimento de muitas doenças degenerativas.

Os habitantes de Creta são conhecidos pela sua ótima saúde e longevidade, baixa incidência de cancro do colon e de cancro da mama, sendo consumidores de grandes quantidades de gordura animal.

Os habitantes de países, como a Suíça, a Áustria e a Grécia apresentam índices de longevidade elevados e seguem dietas alimentares ricas em gordura.

Os Japoneses, entre todas as nações do mundo, são os que possuem maior esperança média de vida e ao contrário do que se constava, a sua dieta não é pobre em gorduras. Os Japoneses ingerem bastantes ovos, carne de porco, carne de vaca, frango, frutos do mar e vísceras.

Apesar de consumirem arroz, ingerem quantidades muito reduzidas de óleos vegetais, farinhas refinadas e alimentos processados.

Vários Pesquisadores da Universidade de Maryland analisaram todos os dados que indicavam haver correlação entre o consumo de gordura e o aparecimento de doenças cardíacas e de vários tipos de cancro. Concluiram que, o que está efetivamente relacionado com o aparecimento de cancro é o consumo de gordura vegetal (gordura trans) e não o consumo de gordura animal.

Vantagens do consumo de gordura saturada

  • As nossas membranas celulares são constituídas por 50% de gordura saturada, daí este tipo de gordura ser essencial e imprescindível para a formação da estrutura celular;
  • A gordura saturada é importante para a síntese de várias hormonas, especialmente para a produção de testosterona;
  • Protege o fígado do álcool e de outras toxinas;
  • Fortalece o sistema imunológico;
  • Contém ácido esteárico e ácido palmítico, que são nutrientes essenciais ao funcionamento do coração;
  • Reveste o coração que a utiliza em situações de estresse;
  • Possui propriedades antimicrobianas, que nos protegem contra microrganismos patogénicos;
  • Favorece o transporte de determinadas vitaminas, tais como: Vitaminas A,D,E e K que são vitaminas lipossolúveis;
  • Contribui para aumentar os níveis de Colesterol HDL (“colesterol bom”);
  • Apresenta funções importantes, no que respeita à síntese enzimática;
  • Fornece energia, principalmente, para quem tem uma atividade física intensa e vigorosa;
  • Funciona como um fungicida;
  • Oferece proteção contra o aparecimento de determinados vírus;
  • Contribui para a prevenção do aparecimento de cancro;
  • Melhora a assimilação do ómega 3, por parte dos tecidos;
  • Favorece a perda de peso, já que as gorduras nos mantêm saciados por períodos de tempo maiores, não se sentindo necessidade de “beliscar” alimentos várias vezes ao dia, ou entre as refeições;
  • Entre outras.

Então se comer gordura, não vou “entupir” as minhas veias com colesterol?

Não, pois não existe nenhum estudo clínico randomizado que demonstre que o colesterol danifique as coronárias!

Os nossos vasos sanguíneos podem ser danificados por radicais livres, vírus, processos de inflamação ou pelo enfraquecimento da sua própria estrutura. Quando alguma destas situações ocorre, o colesterol entra em cena para reparar os estragos. E é por esse motivo que, o colesterol deve ser considerado um aliado na reparação dos vasos sanguíneos.

Além de cumprir a sua função de reparação, ainda funciona como um marcador de que algo se encontra mal no nosso organismo, pois quando os seus níveis aumentam de forma anormal, alerta-nos para processos de inflamação nas paredes dos vasos sanguíneos.

Já fiz referência, mas considero importante reafirmar, que o nosso fígado pode produzir de 3 a 6 vezes mais colesterol que o obtido através da nossa dieta alimentar. Por isso, se não ingerirmos colesterol proveniente dos alimentos, o fígado através de um mecanismo de compensação, produzi-lo-á em excesso.

Conclusão

– Todos os óleos vegetais ou gorduras que sofram processos de extração, hidrogenação ou homogeneização industrial, são consideradas gorduras transformadas (gordura trans), capazes de produzir efeitos negativos na nossa saúde! Neste contexto incluem-se margarinas, óleos de girassol, óleo de colza, entre outros.

– A gordura saturada animal é benéfica para a nossa saúde!

O meu conselho é que consumam gordura saturada, proveniente de animais criados a pasto. Os animais que se encontram confinados possuem uma alimentação à base de farinhas e de cereais processados, e por isso possuem várias toxinas acumuladas na sua gordura. Entendo que não seja fácil, nem sequer económico comprar carne de animais criados a pasto, o que de certa forma nos “obriga” a consumir carne, cuja gordura possa conter toxinas.

Afinal, acontece exatamente o mesmo com muitos outros alimentos que ingerimos:

  • A maioria dos legumes, tubérculos e frutas que ingerimos, contêm pesticidas e agrotóxicos;
  • Muitos dos cereais, como o trigo, o centeio e o milho encontram-se geneticamente modificados;
  • A maioria do peixe que temos à disposição é de aquacultura, sendo alimentado à base de farinhas processadas. O peixe selvagem, se bem que melhor, também contém muitos poluentes, presentes nos mares e oceanos.

Perante este cenário, cabe-nos ter bom senso e escolher o “melhor entre o pior” para que seja possível viver bem e com saúde!

– Quando optamos por um regime alimentar rico em gordura saturada, poderemos beneficiar de inúmeras vantagens, que já foram descritas anteriormente, no entanto teremos que excluir muitos dos hidratos de carbono a que estamos habituados… É imprescindível excluir o consumo de alimentos processados e optar pelo consumo de hidratos de carbono naturais.

– Consumir gordura saturada, gordura vegetal hidrogenada e alimentos processados é totalmente incompatível para a saúde.

– Não sofram de lipidofobia, consumam gordura saturada e eliminem toda a gordura vegetal hidrogenada e todos os alimentos processados da vossa alimentação.

Termino com uma citação: “Nós somos casas muito grandes, muito compridas. É como se morássemos apenas num quarto ou dois. Às vezes, por medo ou cegueira, não abrimos as nossas portas.” (Antonio Lobo Antunes)

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